terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Conto: Clamor dos Inocentes (1/3)


Durante o secundário, aos meus 15 anos de idade, eu decidi que já estava cansado de apanhar todos os dias.
Para um garoto nessa idade, isso pode ser tão aterrorizante ao ponto se tornar insuportável. É como Will, meu amigo, costuma dizer: É melhor ser humilhado apanhando, do que sendo um mísero babaca 1-7-1. Nunca mais pegaremos nenhuma garota, se fizermos isso.
Infelizmente, aquilo não costumava soar tão estupido quanto soa hoje. Nunca havíamos “pegado” garota alguma naquela época, e mesmo assim, Will e eu levamos aquela babaquice como se fosse um lema por praticamente um ano inteiro.
No fim do ano letivo anterior, sabíamos que as coisas haviam piorado bastante – antes de começar a melhorar – para o covarde do Bob Miller, quando ele delatou Patrick Hannigan para o diretor da nossa escola pelo que poderia ser a quinta vez. Bob perdeu mais alguns dentes e teve um de seus braços quebrado, mas nada que já não houvesse acontecido antes. Aquela situação só foi mudar quando o conselho tutelar apareceu e deu uma dura no pai de Patrick, que, por conseguinte, fez o mesmo com filho. Então, depois daquilo, Bob Miller finalmente poderia ser um gordinho nerd e feliz. Mas sozinho.
No início pensamos que Will tinha razão quanto a questão de se tornar 1-7-1 e como isso afeta negativamente sua popularidade na escola. Bob nunca foi um garoto popular, porém, depois daquilo, até mesmo seus amigos nerds se afastaram dele. Algumas semanas depois nós descobrimos que aquilo não tinha nada a ver com popularidade, mas sim com o fato de Patrick ter ameaçado os outros garotos, caso eles ficassem juntos de Bob. E eles cumpriram aquilo à risca, durante as aulas.
Ao menos enquanto aquilo foi necessário.
Bob Miller já não era mais incomodado, mas sabendo o que Will e eu pensávamos que sabíamos, achamos melhor viver sob o nosso lema quando nos tornamos os novos alvos de Patrick.
Não éramos populares, nunca havíamos vencido uma briga ou beijado uma garota, mas, o pior de tudo, era que nos contrastávamos de uma forma pavorosamente ridícula. Estávamos nos famosos clichês de amizade. O gorducho, e o magricela.
Confesso que, mesmo temendo perder a popularidade que todos sabiam ser inexistente – menos eu –, cheguei a cogitar, algumas vezes, seguir a tática de Bob Miller, mas nunca levei isso adiante. Nunca tive coragem para enfrentar as coisas que vêm depois disso.
 Bob era um covarde nato, e havia usado uma das táticas mais conhecidas de um covarde: chamar ajuda. Claro que, antes de funcionar, ele havia precisado recorrer àquilo umas cinco vezes, e a cada nova delação, mais partes de seu corpo saíam feridas.
Particularmente, eu até achava que se ele apanhasse mais uma vez ou duas, teria desistido de tudo e ficado quieto. Quem sabe até mudado de escola. Mas aquilo não havia sido necessário, porque seja lá o que o pai de Patrick houvesse feito a ele, deixou-o fora da sala de aula por três maravilhosos dias, antes de ele voltar com um dos braços enfaixados, e um buraco cicatrizado na testa. Segundo ele, havia apenas caído de bicicleta enquanto fugia do pai.
No ano letivo seguinte, quando Patrick se viu forçado a desistir de fazer de Bob seu saco de pancadas, sentiu-se igualmente forçado a escolher novos alvos, e foi quando Will e eu nos encontramos com ele e dois amigos seus no local errado, na hora errada. Nosso grande pecado foi ter esbarrado neles sem querer, e então nossa vida escolar se tornou uma tortura no pior sentido da palavra.
Após quase um ano dolorido aguentando as surras, ofensas e humilhações públicas, houve um momento onde a maior parte daquele medo que eu sentia deles se transformou em raiva. Depois de tanto tempo apanhando, chega um momento em que todos os hematomas e cicatrizes se tornam um lembrete de que você tem só um objetivo a cumprir.
Acabar com o filho da puta que fez aquilo.
Will ainda não havia chegado naquele ponto. Era praticamente um Rocky Balboa com gordura ao invés de músculos. Até hoje nunca conheci alguém que pudesse receber tanta porrada na cara e continuar de pé. Mesmo assim, ainda que Will não houvesse “chegado lá”, ele era uma massa humana de 80kg recheada com camadas extras de medo, e concordou comigo quando sugeri que algo precisava ser feito em relação àquela situação.
E é aí que entra Billy Jordan.
Eu não era idiota o suficiente para pensar que poderíamos fazer vingança com minhas próprias mãos, e mesmo Will, com toda sua massa corporal e resistência, não era corajoso o suficiente para aquele trabalho – muito menos tinha anos de prática em brigas de rua, como Patrick.
Em murmúrios dos corredores, ainda no ano passado – e, por vezes, naquele mesmo ano, eu acho – foi quando ouvimos falar sobre Billy pela primeira vez. Ele era um dos formandos da última turma. Um cara do qual ninguém sabia praticamente nada sobre; mas todos o temiam, e deduziam coisas.
As histórias sobre ele eram as mais insanas possíveis, e iam desde boatos de que ele havia trepado com metade das garotas do colégio, e até mesmo assaltado um banco com uma única bala na agulha. Geralmente era difícil discernir o que poderia ser verdade do que não era, apesar de que algumas coisas como o boato sobre o assalto ao banco, não eram tão difíceis assim.
O que se tinha de mais concreto sobre ele, eram igualmente boatos; estes, porém, com mais respaldo dos que já haviam o visto nos corredores da escola, algumas vezes, ou estudado com ele. Diziam que Billy era um cara reservado, alguém com quem você não iria querer brigar – isto é, por mais que ele pudesse dar motivos, nunca valia a pena revidar quando se tratava de Billy Jordan. A prova disso eram os três últimos caras que tentaram. Todos foram parar no hospital, enquanto ele, segundo diziam, não sofreu um arranhão sequer.

Eu já começava a pensar que Billy era algum tipo de monstro asqueroso e sanguinário; tão forte quanto o Hulk, e tão feio quanto o Jabba. Bem, ao menos pensava isso até conhece-lo, de fato.

FIM DA PRIMEIRA PARTE