sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Conto: Novo Começo (1/3)

* Sinopse do livro aqui!

5 anos antes do início do caos.




Bryan está muito mais animado que eu em relação as nossas perspectivas de sucesso deste plano. Particularmente, me dói o pensamento de deixar tudo para trás e começar uma vida nova, mas acho que é algo que – se este lugar valer a pena – precisaremos fazer. Acho que...

- James! Larga essa porcaria e vem ver o que achamos! – Chamava a voz de Bryan, irmão de James, na porta do quarto da tripulação.
Assim que Bryan comunicou seu recado, deu as costas ao irmão e tomou direção para o convés. James largou seu pergaminho sobre sua rede de dormir. Ajeitou sua besta – presa em suas costas – e seguiu o irmão. O convés estava cheio. Vários tripulantes olhando para fora navio.
- Achamos esta maldita ilha, James! – Comentava Bryan com um sorriso animado no rosto, assim que o irmão terminava de subir as escadas e se aproximava dele, no parapeito do convés. Olhou para o semblante de ilha que havia longe dali. – Levamos o que? Somente alguns dias?
- Como podemos saber que não é a ilha Narabis? – Perguntou ele, receoso. -  Ou... algum outro lugar pior...
- Você parece uma criança falando essas besteiras, James! Abner conhece Narabis. Ele já esteve lá. Se ele está dizendo que não é, é porque não é.
- Ele não está dizendo nada... – Acrescentou James, observando Abner, no convés superior, com o olhar focado na ilha, utilizando uma luneta.
Abner já havia passado de seu auge da forma física, agora estava com mais de 40 anos. Sua espada, presa a cintura, era de uma lâmina mais longa do que a maioria dos lutares da Organização estavam acostumados. Tinha os cabelos cumpridos de cor castanho-escuro com alguns fios grisalhos, presos sob um rabo de cavalo. Diferente do largo sorriso que costumava carregar estampado na face, naquele momento sua expressão era séria, talvez até preocupado, enquanto sua postura corporal era rígida, como a de um general de guerra experiente.
- Nunca diz nada quando está apreensivo... – Continuava James, nada animado.
- Com tudo que passamos em outras ilhas, todos estão apreensivos. E com razão. Mas isso é besteira. Quando eu e meus companheiros viemos aqui, naquela missão de excursão, encontramos tudo completamente deserto. Acredite em mim, estou dizendo que a ilha é segura.
James mirou Bryan. Seu irmão era 2 anos mais velho que ele. Portava uma espada na bainha da cintura, tinha os cabelos curtos e bagunçados, e a barba mal feita. Era sonhador e conversador. James sempre dizia que era “o tipo de pessoa que ninguém gostava de manter por perto quando se estava aborrecido”.
James fitou Bryan e sentiu toda sua animação, mirando para a ilha da qual se aproximavam com um sorriso largo. Estava seguro demais de suas palavras, e isso era o que mais preocupava James, mas quando Bryan estava assim já não escutava mais qualquer sermão ou conselho.
- É. Eu espero...
 Enquanto a tripulação preparava os botes para zarparem até a ilha, Marlene passava atrás deles junto de Miguel e Isaque, com a voz alterada – porém contida, para não chamar a atenção de toda a tripulação –, como se fosse uma mãe zangada.
- Quanta irresponsabilidade, Miguel! Trazer um garotinho desta idade para uma missão com potencial para ser tão perigosa?!
- A missão não é perigosa! Você ouviu o que a tripulação da missão de excursão nos disse. A ilha está deserta!
- Não interessa! Tudo é perigoso para uma criança da idade de Isaque! – Insistia na bronca a mulher, enquanto adentravam no quarto da tripulação.
Curioso, James continuou observando-os enquanto entravam. Apoiado no parapeito do convés, se encontrava em uma posição que favorecia a visão do trio, dentro do quarto.
Miguel bufou, aborrecido, antes de voltar a responder.
- Enquanto estiver comigo, Isaque vai estar seguro! Além disso, ele quer conhecer outros lugares. Nós queremos!
- Simmm! Por favor, nos deixe ir também! – insistiu o mais novo. – Sou muito forte! Posso me cuidar!
- Já chega – disse a mulher, em tom categórico. – Você não vai mais zarpar até a ilha. Vai ficar aqui, cuidando de Isaque e guardando o navio.
- Mas Marlene, eu... – tentava argumentar o jovem, até ser interrompido.
- Sem “mas”, Miguel! Se não quer que eu conte a Abner o que fez, me obedeça.
- Você vai contar de qualquer jeito... – resmungou ele, ainda aborrecido.
- Mas ainda posso escolher as palavras que vou usar.
Terminando sua frase, os dois irmãos incorporaram expressões de arrependimento enquanto Marlene saía do quarto e subia até o convés superior, onde passava a conversar com o líder, Abner.
A mulher era sobrinha de Abner, líder da Organização que participavam, enquanto Miguel era um adolescente órfão que o grupo deles (essencialmente Abner) havia adotado quando ainda era criança, assim como Isaque, o irmãozinho caçula do rapaz, de 5 anos.
- Não sei como Abner pode ter tanta paciência com esse Miguel... – resmungava Bryan que, sem que James percebesse, também estivera olhando aquela cena toda. – Está sempre achando motivos para fazer alguma merda.
Bryan voltou a fitar a ilha, animado, enquanto James ainda olhava Miguel. O garoto deveria ter cerca de 15 anos de idade e, agora deitado, dividia uma rede com seu irmãozinho. Talvez estivesse arrependido de ter trazia seu irmão para algo tão perigoso como aquilo, ou, talvez estivesse apenas aborrecido, pensando em um jeito de se juntar a tripulação na exploração daquela ilha.
James alternou seu olhar para Abner, enquanto ele terminava de conversar com Marlene, que se afastava dele. O líder da Organização dirigiu um olhar sério a James, seguido de um aceno positivo de cabeça.
Naquele momento, aquele tão simples gesto fazia James voltar a sentir o peso que carregava nas costas por ser um dos candidatos a substituir Abner na liderança da Organização, quando o momento chegasse. E o fato de ser o favorito por parte do próprio líder não amenizava esse peso.

*

Conforme levavam os 8 botes até a areia da praia, transportando cerca de 40 homens, James apreciava a paisagem do lugar.
Com uma margem estreita entre o mar e a floresta, a região do solo com areia, naquela praia onde desembarcavam, durava pouco. A floresta da ilha era densa, dando um primeiro indicio de desabitação.
- É lindo, não é? – dizia Bryan, se aproximando de James com o mesmo sorriso largo ainda estampado na face.
- É – respondia James, incerto, tentando entender onde havia beleza em um gramado alto e milhares de plantas, árvores e galhos.
Quando os botes já estavam atracados, Abner ordenou que os homens seguissem juntos mata a dentro. Andavam em fila indiana, de dois em dois. James havia ficado no meio da fila, enquanto Abner, Bryan e alguns outros que haviam participado da última excursão até aquela ilha permaneciam na linha de frente, abrindo caminho e tentando guiá-los.
Alguns homens se mostraram maravilhados com o lugar, enquanto andavam. Respaldavam toda a “beleza natural” do ambiente, e toda sua suposta “pureza”, já que não havia sido destruída ou sequer tocada por seres vivos.
 James achava aquele pensamento irônico, já que todos aqueles homens queriam fazer daquele lugar um lar, e para isso seria necessário subjulgar aquela ilha. As mãos humanas transformariam tal “paraíso natural” em madeiras e concretos.
Após alguns minutos de caminhada de certa animação misturada com alguma tensão, eles haviam chegado em um espaço onde havia um aclive de alguns metros de altitude que levava até o topo de uma cachoeira, criando um pequeno lago no meio da floresta. Animados, todos correram até a beirada para tomarem água, ou a jogar um no outro.
Por alguns minutos mataram a sede, encheram seus cantis e se refrescaram enquanto descansavam, mas logo Abner já reorganizava todos em suas posições. Tinham que vasculhar o máximo possível daquela ilha antes que anoitecesse e eles precisem voltar ao navio. Se tudo corresse como planejado, em poucos dias eles poderiam estar voltando para casa com a notícia de que havia um lugar seguro para o qual poderiam migrar.
Enquanto alguns homens terminavam de estacar bandeiras no solo com o símbolo da Organização, demarcando as áreas que já haviam sido exploradas pelo grupo, Abner terminava de organizar todos em fila indiana, de volta mata adentro. Dessa vez contornariam a cachoeira.
James terminava de encher seu cantil, e se encaminhava para o final da fila, junto com os outros, até que Abner, que ainda não havia entrado na mata, fez sinal para que os todos seguissem adiante enquanto segurava James pelo braço, antes que ele se juntasse aos outros.
Aos poucos todos foram seguindo caminho em passos lentos, e assim que Abner e James estiveram sozinhos o líder desfez sua postura séria, expressou um sorriso na ponta dos lábios e olhar caloroso.
- Por que está tão sério hoje, James?
- Acho que pelo mesmo motivo que você.
Abner riu.
- Não me parece que esteja apreensivo com que vamos encontrar aqui. Por tudo que vimos até agora, este lugar parece seguro. Você está diferente. Está  melancólico...
James soltou um sorriso na ponta dos lábios, um pouco mais animado.
- Você me conhece.
- Convivo com você a tempo o suficiente para isso.
- É, eu acho que sim. Apenas me pergunto se vale mesmo a pena deixar tudo que temos para trás e migrarmos para esta ilha. Começar do zero...
- Exato. Começar do zero – dizia Abner, dando alguns tapinhas fracos no rosto do outro. – Caso este lugar ofereça bons recursos – dizia ele, apontando para a cachoeira - então poderemos criar nosso povo aqui, longe da ignorância humana da outra ilha. Seremos melhores. Conviveremos em paz. Em harmonia.
James respirou fundo e permaneceu mudo por alguns segundos, mirando tudo ao seu redor. A floresta, a cachoeira, os pássaros cantando... e de repente tudo aquilo já não lhe parecia mais tão mal.
- É, acho que talvez você tenha razão...
Abner expressou um sorriso mais largo e, contente, deu novos tapinhas na face de James.
 - Bom saber que, mesmo velho, ainda consigo te fazer mudar de ideia – dizia ele, enquanto voltavam a trocar sorrisos contentes.
James iria interromper o outro para dizer alguma coisa, mas Abner desviou o olhar para o solo, e deu um suspiro cansado. Naquele momento James fitou Abner como se, ao invés de pouco mais de 40 anos, ele tivesse o dobro disso, e o triplo em sabedoria.
- Quando eu morrer, sabe que vou querer que você cuide do nosso legado, não é? – respondeu ele, voltando a contemplar James, ainda parecendo cansado, e com um quê expressão derrotada na face.
- Você ainda é novo – respondia, demonstrando muito mais indiferença do que a sentindo.
- Tenho mais de 40 anos, James. Quantas pessoas com 60 você conhece?
- Gregório Silver está quase lá...
- Gregório é um homem honrado, forte e resistente o suficiente para enganar a morte algumas vezes. Mas diferente dele, eu sinto que minha hora logo vai chegar...
- Não diga...
- Não, James. Ela vai – dizia ele, interrompendo o outro. - Cedo ou tarde, ela vai.
- Você sabe que temos poções, não sabe? Temos aliados fortes e nenhuma guerra para lutar há anos. Todos podemos superar as expectativas de vida atual.
- Talvez sim, talvez não, a única coisa que é certa é que morreremos algum dia. Todos nós. E é por isso que eu quero que você se prepare para quando minha hora chegar.
- Só me quer o substituindo porque gosta de mim. Todos conseguem ver que não sou a pessoa certa para a liderança. Marlene é muito mais capacitada que eu para isso. É firme e fria. Sempre pensa nos outros, e por isso tem o respeito de todos. Deveria ter visto como ela tratou Miguel e Isaque, no navio. Era líder e mãe ao mesmo tempo. Além disso, Marlene é sua sobrinha.
Abner hesitou por um momento, confuso. Então voltou a sorrir na ponta dos lábios.
- Receio que possa ser fria demais, às vezes... – dizia ele, em tom melancólico. – Tanto dentro da Organização quanto fora dela eu sempre prezei pela segurança de todos. Não da maioria, mas sim de todos. Você entende isso, não é?
- Acho que sim...
James não entendia. Em momentos de risco, muitas vezes a “segurança de todos” não era uma opção, logo, deveria se optar pela “segurança da maioria”. De qualquer maneira, não questionou. Preferia não estender aquele assunto.
- Mesmo assim, conheço as várias qualidades de Marlene mais do que qualquer um, e ainda assim continuo preferindo você. Queria este serviço antes, James. Está inseguro?
- Eu... não. Não é isso... – respondia James, deixando seu olhar desolado sob os próprios pés.
- James – chamou-o Abner, se aproximando do outro e pondo uma das mãos em seu ombro. O corpo transmitindo seu calor. – Sabe que pode falar o que quiser comigo, não é?
James suspirou. Decidiu que era o momento de ser sincero.
- Eu nunca quis ser líder. Eu só queria estar ao seu lado, te ajudando, te apoiando... – sua expressão se tornou arrependida. – Quando você falou que me queria para substituí-lo, eu... eu quis isso, por um tempo. Queria ser como você, forte e admirado. Mas descobri que não tenho perfil ou vontade para isso. Não quero ser responsável pelo futuro de todos...
Abner aproximou seu corpo de forma sorrateira e delicada contra o de James. Em um movimento lento seu lábio roçou levemente no do outro, fazendo-o tremer, e então o beijou.
- Não precisa mentir para mim – disse Abner, ao fim do beijo.
James não conseguiu conter um sorriso que mostrava seus dentes, contente.
- Eu sei. Às vezes eu só esqueço o quanto você é maravilhoso.
Eles riram e permaneceram em um abraço desajeitado – já que a besta de James ficava presa em suas costas, atrapalhando um pouco o gesto – por alguns segundos. A vontade de ficar perto um do outro fazia-os sentir como se houvessem ficado longe há anos, quando na verdade, faziam apenas duas noite.
O barulho de grama se mexendo e vozes sussurradas foi quase insignificante, mas não imperceptível para bons ouvidos, como os de Abner. O homem, em um dos raros momentos de descanso que tinha, recolhia seu queixo do ombro de James, e se afastou alguns passos dele, olhando ao olhar ao redor, procurando o causador do barulho.
James, que não havia escutado o barulho, percebeu que a reação do outro indicava que algo estava errado, o que o levou a olhar ao redor também. Pássaros voavam, e talvez alguma cobra rastejasse em algum lugar, mas James não viu nenhuma ameaça por perto.
Abner riu, então se voltou James.
- Ah! Deve ser só o vento! – dizia ele, em voz alta, em seguida voltou a falar, dessa vez sussurrando. – É Miguel. Não deve ter aguentado ficar no navio, e por isso veio para cá, trazendo Isaque com ele.
- O que?! Quanta irresponsabilidade! – reclamou James, assustado. – Mande-o de volta ao navio!
- É, eu vou mandar alguém levá-lo de volta – sussurrava o outro, em meio a uma nova risada. – Então não fale tão alto, vai fazer ele perceber que estamos aqui.
James bufou, aborrecido.
- Você mima demais esse garoto.
- E você provavelmente está certo. Ele é praticamente um filho para mim, e eu não sou um pai muito bom – dizia ele com um sorriso na face, pensativo.
- Você deveria... – começava a dizer o outro, até ser interrompido por barulhos distantes de gritos e correria.
“Ahhhhhhhh!”.
Abner e James se afastaram, olhando ao redor, apreensivos. James se encontrava muito mais assustado que o outro, e o líder, dotado de sagacidade, engoliu em seco e tentou demonstrar confiança.
- James, vá atrás de Miguel e Isaque os leve de volta ao navio. Eu vou verificar o que...
“Pleft!”.
Antes que pudesse terminar sua frase, alguma coisa passou voando em alta velocidade, perto do cotovelo de James. Olhou naquela direção, e para sua surpresa – e medo – viu uma lança fincada no chão, ao seu lado. Voltou-se na direção de quem havia arremessado tal objeto, e, no topo do morro onde a cachoeira percorria, cerca de uma dezena de seres que, mesmo andando em duas patas, assemelhavam-se muito touros em boa parte dos aspectos, com braços e mãos ao invés de patas dianteiras. Vestiam armaduras de guerra, e estavam armados com lanças.
- Tauros... – murmurou James para si mesmo, com os olhos vidrados de medo.
Aqueles seres, dos quais ele tanto ouviu falar sempre que se mencionava “passado” e “guerra” estavam ali, naquela ilha aparentemente inabitada e segura.
Assustado, tornou a olhar em direção a Abner, que tinha o corpo trêmulo, os olhos repletos de dor e pavor, e a boca aberta, como se sua alma fugisse lentamente de seu corpo. James já havia visto esse tipo de reação em uma pessoa antes, e ele sabia que só poderia significar uma coisa.
Mal foi preciso deslocar seu olhar para baixo para perceber uma enorme lança atingira o líder nas costas, atravessando bem no meio de seu peito, e terminando fincada no solo.
Abner sequer gemeu, apenas fitava James enquanto lutava contra a vontade que sentia de fechar os olhos e cair no chão. O outro estava paralisado. Atônito, não sabia como reagir, até que, em um impulso, correu em direção ao líder quando percebeu que ele desmaiaria sobre aquela lança, o que agravaria ainda mais sua situação.
Passou o braço dele sobre seu ombro, e o carregou, da forma que pôde, até atrás de uma árvore perto dali, escondendo-se do campo de visão dos tauros, que já gritavam “atacar!”, e faziam novas lanças voltarem a chover, no local.
Atrás da árvore, escondidos, James percebeu que outra lança havia acertado Abner, dessa vez em sua perna. Praguejando, retirou a lança da perna do líder, e também quebrou ao meio a que estava fincada no peito do mesmo, fazendo com que ele finalmente soltasse alguns gemidos de dor.
 Jogados ao chão, contra a árvore, lágrimas escorreram pelo rosto de James e encontraram a testa de Abner, que o fitava profundamente com o os olhos trêmulos, assustados, até ir ficando imóvel, aos poucos.
Toda a gritaria e correria que ouviram anteriormente ainda não havia cessado. Dessa vez, estava ainda maior, e, fora da fila indiana, diversas pessoas da Organização corriam em direção a James e passavam direto por ele, se mostrando ainda mais assustados com o fato de ver Abner naquele estado.
Ignorando a todos, James abraçava o corpo de Abner, aos prantos, até Marlene se ajoelhar a sua frente, atônita, checar os batimentos cardíacos de seu tio para então mirar James, completamente pálida e tensa.
Marlene constatou o que James já sabia desde o primeiro instante, e eles nem precisaram trocar quaisquer palavras para se chegar a um entendimento sobre aquilo.
- Temos que ir, James. Agora! – dizia Marlene, com a voz frouxa, repleto de pesar.
O homem sacudiu a cabeça para os lados, em sinal negativo e, com a mão trêmula, fechou os olhos de Abner lentamente, decidido a ficar o maior tempo possível ao lado de seu amado.
- Vá sem mim – resmungou James, aos prantos. – Eu não posso deixá-lo.




FIM DA PRIMEIRA PARTE


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Conto: Clamor dos Inocentes (3/3)




No início, uma semana após contratar Billy, eu começava a pensar que ele havia sido um presente dos céus. Um mês depois, eu entendi que não era bem assim. Patrick Hannigan estava desaparecido, e Billy também. Eles simplesmente haviam sumido.
Cheguei a pensar que houvessem matado um ao outro, ou, quem sabe, fugido juntos para alguma outra cidade. Mas a resposta concreta só chegou alguns anos depois.
Primeiro veio a notícia de Patrick, que teve seu corpo encontrado no fundo de um rio. Tinha algumas costelas quebradas, além do maxilar e uma das pernas. A polícia evitou ir atrás dos detalhes, e como ele já não tinha família que se importasse, as coisas ficaram por isso mesmo. Teve um enterro vagabundo onde pouquíssimas pessoas compareceram, e eu era uma delas.
Me sentia culpado, com medo de ter causado a morte de Patrick. Quem poderia imaginar que Billy Jordan iria tão longe por míseros 100 dólares?
Eu, certamente não. Teria oferecido a metade, se isso fizesse alguma diferença.
Entretanto, eu sentia que poderia descobrir a verdade sobre as coisas, cedo ou tarde, mas então, após quase nove meses terem se passado desde o enterro de Patrick, depois de já estar sendo procurado pela polícia em todo estado por diversos assaltos e dois assassinatos, Billy Jordan também morreu.
Aconteceu em Santa Martha, um condomínio de luxo pacato. O corpo de Billy foi encontrado queimado, junto com um carro que o dono havia dado queixa de assalto, há algumas semanas. O fogo havia sido causado por um cigarro, e só não havia acontecido algo mais desastroso e incendiado toda a floresta onde o carro estava – na periferia do condomínio – porque alguns moradores ouviram barulhos de disparos e resolveram investigaram a situação.
Moradores bem intencionados mais um bom tempo e muita água, e então um incêndio pode ser controlado.
A perícia encontrou, dentro do carro quase completamente queimado, alguns quilos de cocaína, uma Colt .45 e, perto dali, em direção ao interior do condomínio, um colar de pérolas arrebentado. Foi concluído que Billy estava sendo assaltado, tentou pegar a arma no banco de trás, e acabou sendo baleado. O cigarro que fumava caiu no próprio corpo e iniciou aquele incêndio.
Mas eu sei que não foi nada disso.
Primeiramente, qual a chance de um ladrão ser assaltado por outro dentro de um dos condomínios mais seguros do estado? Qual a chance de um cara matar o outro e não levar sua arma e seu carro, sendo que a chave estava na ignição?
Não foi isso. Definitivamente, não foi.
Acho que Billy havia seduzido alguma das madames ricaças do Santa Martha, levou-a até seu carro roubado, e então foram trepar em algum lugar, como sempre fazia desde os tempos de colégio. Até que algo deu errado.
Talvez um amigo próximo de Patrick – se ele tivesse algum que se importasse –, ou outra pessoa que Billy possa ter prejudicado, tenha o encontrado e feito justiça com as próprias mãos. Talvez fosse algum traficante ou o marido da madame que ele comia.
A única coisa que sei é que não existe chance nenhuma de Billy Jordan ter sido assassinado por algum motivo casual ou não intencional. Billy é o tipo de cara que, antes mesmo de você terminar de sacar sua arma, ele já te deu ao menos dois motivos para puxar o gatilho.
Olhando para trás, hoje, é quase engraçado relembrar todas essas coisas.
No início, todos chamávamos Bob Miller de covarde, mas a verdade era que ele sempre suportava uma surra cada vez pior sem nunca desistir de revidar, o que, no seu caso, significava fazer denúncias.
Eu era o oposto disso. Eu era o verdadeiro covarde. Nunca consegui falar para ninguém, além dos meus colegas - que já sabiam que aquilo acontecia -, que apanhava praticamente todos os dias. Eu suportava calado, tendo medo de me defender ou pedir por ajuda. Eu escolhi o caminho mais fácil, paguei um cara que cuidou dos meus problemas por mim.
Se eu tivesse tido metade da coragem de Bob, talvez Patrick pudesse estar vivo hoje. Pois é, esta talvez seja a parte mais curiosa de todas, mas eu nunca quis que Patrick morresse, mesmo naquela época. Eu só não queria continuar apanhando.
Assim que Patrick foi dado como desaparecido, Will até ficou feliz. Disse que era um desafeto a menos na nossa lista. Mesmo hoje ele ainda diz, às vezes, que contratar Billy foi a melhor coisa que fizemos.
Eu não penso dessa forma. Não espero que ninguém entenda, mas não há um dia em que eu não sinta meu travesseiro mais pesado, antes de dormir, imaginando o que pode ou não ter acontecido; ou o que eu posso, ou não, ter provocado.
            Hoje em dia, quase 20 depois do início dessa história, os cigarros que passei a fumar depois do sumiço de Patrick transformaram meus pulmões em frágeis sacolas plásticas cheias de ar, mas durante as noites mais difíceis, eles são a única coisa que conseguem me fazer adormecer.


                                           FIM DA ÚLTIMA PARTE


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Conto: Clamor dos Inocentes (2/3)

        
“Comum”. Lembro que essa foi a primeira palavra que veio a minha cabeça quando vi Billy pela primeira vez. O portão de minha garagem se abria lentamente, e começava a revelar os primeiros traços daquele que poderia ser o meu salvador. Tênis baratos e desgastados, calça rasgada em ao menos dois locais diferentes, e jaqueta escura de couro, fechada. As mãos no bolso da jaqueta e a expressão completamente indiferente estampada na face, espalhando a fumaça do cigarro de sua boca.
- Vo-você é o Billy? – perguntei, a princípio um pouco nervoso. É claro que o cara poderia não ser do tamanho de Hulk Hogan, mesmo assim, eu continuava sendo um magrelo fracote e medroso. Além disso, Bruce Lee também não era grande, e todos sabemos das coisas que ele foi capaz de fazer.
Ele não respondeu. Continuou me encarando com um olhar amargo por mais algum tempo, sem desviar o olhar. Sua pele era branca, pálida, e os cabelos curtos, estilo militar. Somente mais tarde, naquele dia, que eu percebi o quanto ele se parecia com um psicopata, me olhando daquela forma.
- É, acho que se não fosse ele, não estaria aqui. Não é? – dizia eu, dando uma risada forçada, nervoso.
Billy continuou me olhando da mesma forma, ainda sem dizer nada, o que me deixou mais nervoso. Cheguei a pensar que diria alguma coisa quando mexeu seu braço direito, mas apenas puxou o cigarro dos lábios secos e tragou profundamente.
Outra coisa sobre Billy Jordan era que ele estava sempre fumando quando estava fora da escola. Os boatos já diziam isso, então não era exatamente novidade para mim, nem mesmo algo tão ruim quanto os comerciais de TV faziam parecer. As pessoas gostavam, achavam legal. Seria algo que até mesmo eu poderia gostar, aos meus 16 anos, se aquilo não fosse tão desnecessário e indiferente para mim, naquela época.
Depois de algum tempo Billy desviou o olhar de mim, e começou a olhar as coisas de minha garagem, ao meu redor. Entrou em passos lentos, observador.
- Ãn... pode entrar, fique à vontade – eu disse a ele, conforme ele já entrava em minha casa.
Passou os olhos pelas prateleiras repletas de velharias, materiais de construção e de pintura. Naquela época meu pai havia recebido uma promoção no trabalho e, na empolgação do momento, comprou vários daqueles materiais, prometendo fazer de nossa velha casa uma mansão. O tempo passou e, que eu me lembre, ele mexeu somente uma ou duas vezes nos materiais de construção para consertar um vazamento ou fincar um prego na parede para colocar um quadro.
- Humph. Que lixaria... – resmungou Billy pela primeira vez, entediado. Tinha parte da voz obstruída pelo cigarro em sua boca, e olhava com nojo para a garagem, se apoiando contra uma das portas do recém-comprado Mazda 626 1996 do meu pai.
Tragou profundamente com seu cigarro e voltou a me encarar com o mesmo olhar de antes. Talvez até um pouco mais zangado. Dei um sorriso torto, e pensei na possibilidade de lhe oferecer um café, mas percebi que não seria uma boa ideia antes de fazê-lo.
Decidi ir direto ao assunto.
- Certo... eu te chamei aqui porque... – comecei a dizer até ele me interromper, com a voz firme.
- Quer que eu bata em quem?
- O-o que? – perguntei, nervoso.
Naquele momento eu imaginava como Billy poderia saber que eu havia o chamado ali com aquele intuito. Eu havia encontrado seu número com um amigo da minha irmã, que estudou com ele. Na conversa por telefone ele parecia igualmente calado, ainda que na ocasião eu houvesse pensado que ele estava apenas ocupado com alguma outra coisa. Apenas disse a ele que tinha uma proposta para lhe fazer e lhe dei uma estimativa de quanto poderia pagar. Ele não perguntou nada, apenas disse que viria.
- As pessoas me ligam querendo que eu bata em alguém, então elas dizem um nome, me pagam, e eu faço o serviço. Então? O que tenho que fazer? – dizia ele, em tom mais ríspido do que suas palavras faziam parecer.
Na época eu achei curioso que Billy houvesse encontrado minha casa tão rápido. Ela não tinha numeração na frente e havia outras duas ruas com o mesmo nome. A grande maioria das pessoas não encontrava minha casa na primeira vez, mas Billy encontrou. Somente anos mais tarde eu descobri que minha irmã mais velha havia sido uma das garotas do colégio com quem ele trepou, no secundário. Antes disso, eu não fazia ideia.
Quero dizer, é claro que eu sabia que minha irmã, cedo ou tarde, treparia com alguém – assim como eu mesmo também pretendia –, o problema é que nós nunca esperamos que esse alguém seja um babaca como Billy Jordan ou Patrick Hannigan.
Na verdade, acho que não esperamos nem que elas façam isso com caras como Will, Bob Miller ou eu.
– Ãn... Certo – eu dizia, tentando retomar minha postura. – Tem um cara que anda incomodando a mim e um amigo há algum...
– Que merda você não entendeu? – me interrompeu ele, impaciente, arrancando da boca o filtro que havia sobrado do cigarro, e jogando para fora da garagem. – Eu só quero a porra do nome e o dinheiro!
Eu hesitei por um momento, observando a atitude agressiva e a expressão sanguinária de Billy, mas, de alguma forma, me enchi de coragem e disse com a convicção de quem grita um hino de guerra o nome que já estava entalado na minha garganta há quase um ano.
– Patrick Hannigan. 100 dólares agora, e mais 100 depois, caso ele vá parar no hospital – dizia eu, puxando com violência o dinheiro de meu bolso.
Will e eu lutamos para conseguir juntar aquela quantidade durante um mês, pois sabíamos – através dos boatos – que Billy não faria aquilo por menos. Tivemos que cortar grama, limpar as calhas e até lavar os carros dos nossos vizinhos durante um bom tempo, até finalmente conseguirmos.
Eu me sentia inquieto por dentro, assustado; mas por fora eu segura 100 dólares com firmeza na mão, e lançava um olhar afiado a Billy, como se o desafiasse a aceitar aquela missão. Ele finalmente mudou a expressão, e deu um sorrisinho cínico na ponta dos lábios. Andou em minha direção a passos firmes – enquanto eu mantinha minha postura –, pegou o dinheiro de minha mão com rapidez e se encaminhou para fora da minha garagem.
Enquanto ele saía, confesso que a imagem que me vem à cabeça agora, ao relembrar tudo isso, é a fala de minha irmã sobre ele. Não era bom de cama, e nem bonito. Dizia ela, indiferente. A questão com ele era o prazer de saber que você estava fazendo algo que não devia, com alguém que não devia.
De certo modo, tirando a parte sexual da coisa, era daquela forma que eu me sentia ao ver Billy se afastar de minha casa. Mas essa sensação não tinha nada de prazerosa. Eu era um frágil ratinho assustado que tinha relapsos de coragem, e, por vezes, decidia ir atrás de ratos maiores e mais fortes arquitetar um plano contra um cientista malvado que brincava de Deus.
Eu, talvez, fosse o ratinho assustado, mas Billy não era outra rato – mesmo que um grande – e muito menos Patrick Hannigan era um cientista malvado.
- Guarde bem meus outros 100 dólares – dizia ele, olhando por cima dos ombros com o mesmo sorrisinho cínico de antes, e puxando outro cigarro do próprio bolso enquanto o portão da minha garagem se fechava atrás dele.
              Eu guardei bem aqueles 100 dólares, mas Billy Jordan nunca voltou para buscá-los.


                                        FIM DA SEGUNDA PARTE


terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Conto: Clamor dos Inocentes (1/3)


Durante o secundário, aos meus 15 anos de idade, eu decidi que já estava cansado de apanhar todos os dias.
Para um garoto nessa idade, isso pode ser tão aterrorizante ao ponto se tornar insuportável. É como Will, meu amigo, costuma dizer: É melhor ser humilhado apanhando, do que sendo um mísero babaca 1-7-1. Nunca mais pegaremos nenhuma garota, se fizermos isso.
Infelizmente, aquilo não costumava soar tão estupido quanto soa hoje. Nunca havíamos “pegado” garota alguma, naquela época, e mesmo assim, Will e eu levamos aquela babaquice como se fosse um lema por praticamente um ano inteiro.
No fim do ano letivo anterior, sabíamos que as coisas haviam piorado bastante – antes de começar a melhorar – para o covarde do Bob Miller, quando ele delatou Patrick Hannigan para o diretor da nossa escola pelo que poderia ser a quinta vez. Bob perdeu mais alguns dentes e teve um de seus braços quebrado, mas nada que já não houvesse acontecido antes. Aquela situação só foi mudar quando o conselho tutelar apareceu e deu uma dura no pai de Patrick, que, por conseguinte, fez o mesmo com filho. Então, depois daquilo, Bob Miller finalmente poderia ser um gordinho nerd e feliz. Mas sozinho.
No início pensamos que Will tinha razão quanto a questão de se tornar 1-7-1 e como isso afeta negativamente sua popularidade na escola. Bob nunca foi um garoto popular, porém, depois daquilo, até mesmo seus amigos nerds se afastaram dele. Algumas semanas depois nós descobrimos que aquilo não tinha nada a ver com popularidade, mas sim com o fato de Patrick ter ameaçado os outros garotos, caso eles ficassem juntos de Bob. E eles cumpriram aquilo à risca, durante as aulas.
Ao menos enquanto aquilo foi necessário.
Bob Miller já não era mais incomodado, mas sabendo o que Will e eu pensávamos que sabíamos, achamos melhor viver sob o nosso lema quando nos tornamos os novos alvos de Patrick.
Não éramos populares, nunca havíamos vencido uma briga ou beijado uma garota, mas, o pior de tudo, era que nos contrastávamos de uma forma pavorosamente ridícula. Estávamos nos famosos clichês de amizade. O gorducho, e o magricela.
Confesso que, mesmo temendo perder a popularidade que todos sabiam ser inexistente – menos eu –, cheguei a cogitar, algumas vezes, seguir a tática de Bob Miller, mas nunca levei isso adiante. Nunca tive coragem para enfrentar as coisas que vêm depois disso.
Bob era um covarde nato, e havia usado uma das táticas mais conhecidas de um covarde: chamar ajuda. Claro que, antes de funcionar, ele havia precisado recorrer àquilo umas cinco vezes, e a cada nova delação, mais partes de seu corpo saíam feridas.
Particularmente, eu até achava que se ele apanhasse mais uma vez ou duas, teria desistido de tudo e ficado quieto. Quem sabe até mudado de escola. Mas aquilo não havia sido necessário, porque seja lá o que o pai de Patrick houvesse feito a ele, deixou-o fora da sala de aula por três maravilhosos dias, antes de ele voltar com um dos braços enfaixados, e um buraco cicatrizado na testa. Segundo ele, havia apenas caído de bicicleta enquanto fugia do pai.
No ano letivo seguinte, quando Patrick se viu forçado a desistir de fazer de Bob seu saco de pancadas, sentiu-se igualmente forçado a escolher novos alvos, e foi quando Will e eu nos encontramos com ele e dois amigos seus no local errado, na hora errada. Nosso grande pecado foi ter esbarrado neles sem querer, e então nossa vida escolar se tornou uma tortura no pior sentido da palavra.
Após quase um ano dolorido aguentando as surras, ofensas e humilhações públicas, houve um momento onde a maior parte daquele medo que eu sentia deles se transformou em raiva. Depois de tanto tempo apanhando, chega um momento em que todos os hematomas e cicatrizes se tornam um lembrete de que você tem só um objetivo a cumprir.
Acabar com o filho da puta que fez aquilo.
Will ainda não havia chegado naquele ponto. Era praticamente um Rocky Balboa com gordura ao invés de músculos. Até hoje nunca conheci alguém que pudesse receber tanta porrada na cara e continuar de pé. Mesmo assim, ainda que Will não houvesse “chegado lá”, ele era uma massa humana de 80kg recheada com camadas extras de medo, e concordou comigo quando sugeri que algo precisava ser feito em relação àquela situação.
E é aí que entra Billy Jordan.
Eu não era idiota o suficiente para pensar que poderia fazer vingança com minhas próprias mãos, e mesmo Will, com toda sua massa corporal e resistência, não era corajoso o suficiente para aquele trabalho – muito menos tinha anos de prática em brigas de rua, como Patrick.
Em murmúrios dos corredores, ainda no ano passado – ou talvez naquele mesmo ano, eu acho – foi quando ouvimos falar sobre Billy pela primeira vez. Ele era um dos formandos da última turma. Um cara do qual ninguém sabia praticamente nada sobre; mas todos o temiam, e deduziam coisas.
As histórias sobre ele eram as mais insanas possíveis, e iam desde boatos de que ele havia trepado com metade das garotas do colégio, e até mesmo assaltado um banco com uma única bala na agulha. Geralmente era difícil discernir o que poderia ser verdade do que não era, apesar de que algumas coisas como o boato sobre o assalto ao banco, não eram tão difíceis assim.
O que se tinha de mais concreto sobre ele, eram igualmente boatos; estes, porém, com mais respaldo dos que já haviam o visto nos corredores da escola, algumas vezes, ou estudado com ele. Diziam que Billy era um cara reservado, alguém com quem você não iria querer brigar – isto é, por mais que ele pudesse dar motivos, nunca valia a pena revidar quando se tratava de Billy Jordan. A prova disso eram os três últimos caras que tentaram. Todos foram parar no hospital, enquanto ele, segundo diziam, não sofreu um arranhão sequer.
Eu já começava a pensar que Billy era algum tipo de monstro asqueroso e sanguinário; tão forte quanto o Hulk, e tão feio quanto o Jabba. Bem, ao menos pensava isso até conhece-lo, de fato.


FIM DA PRIMEIRA PARTE